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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Stanislaw Ponte Preta

Stanislaw Ponte Preta 02.jpg

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01.
Se o diabo entendesse de mulher, não tinha rabo nem chifre.

02.
Pelo jeito que a coisa vai, em breve o terceiro sexo será o segundo.

03.
Política tem esta desvantagem: de vez em quando, o sujeito vai preso, em nome da liberdade.

04.
Basta ler meia página do livro de certos escritores para perceber que ele está despontando para o anonimato.

05.
Os valores morais são os únicos que conservaram os preços de antigamente.

06.
Todo homem que classifica a mulher de "sexo perdido" é porque tem má vontade de encontrá-lo.

07.
A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento.

08.
Se a senhora está mesmo disposta a se despir de todos os preconceitos, pode ir tirando a calcinha.

09.
O verdadeiro puxa-saco é vidrado em presidente da República, seja ele um verdadeiro homem de Estado, seja ele um cocoroca total.  Não há um prefeito cretino do interior que não sonhe com uma praça para inaugurar com o nome do presidente da República.

10.
No Brasil as coisas acontecem, mas depois, com um simples desmentido, deixaram de acontecer.

11. 
Antes só do que muito acompanhado.

12.
Quando aquele cavalheiro nervoso entrou no hospital dizendo "eu sou coronel, eu sou coronel", o médico tirou o estetoscópio do ouvido e quis saber: "Fora esse, qual o outro mal do qual o senhor se queixa?" .

13.
Nos trens suburbanos não livram a cara nem de padre, que dirá mulher de minissaia.

14.
Macrobiótica é um regime alimentar para quem tem 77 anos e quer chegar aos 78.

15.
Consciência é como vesícula, a gente só se preocupa com ela quando dói.

16.
Difícil dizer o que incomoda mais, se a inteligência ostensiva ou a burrice extravasante.

17.
Sempre ouviu dizer que o homem totalmente realizado é aquele que tem um filho, planta uma árvore e escreve um livro. Tinha um filho, plantou uma árvore, o filho trepou na árvore, caiu e morreu. Só lhe restou escrever um livro sobre isso.

18.
Quem não tem quiabo não oferece caruru.

19.
Mania de grandeza é a desses suplementos literários que têm um aviso dizendo que é proibido vender separadamente.

20.
Pode-se dizer a maior besteira, mas se for dita em latim muitos concordarão.

21.
Homem que desmunheca e mulher que pisa duro não enganam nem no escuro.

22.
Todo homem previdente sorri sem falha no dente.

23.
Mulher expondo teoria sobre educação infantil é solteira na certa.

24.
Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!

25.
Esperanto é a língua universal que não se fala em lugar nenhum.

26.
Era desses caras que cruzam cabra com periscópio pra ver se conseguem um bode expiatório.

27.
O terceiro sexo já está quase em segundo.

28.
As coisas que mais contribuem para avacalhar a dignidade de um homem são, pela ordem, bofetão de mulher e tombo de bunda no chão.

29.
A polícia prendendo bicheiros? Assim não é possível. Respeitemos ao menos as instituições!

30.
O primeiro nome de Freud era Segismundo. Aliás, não só seu primeiro nome como também seu primeiro complexo.

31.
Mais inútil do que um vice-presidente.

 

32.
A polícia anda dizendo que prende um bandido de meia em meia hora, então a gente fica desconfiado que eles assaltam de 15 em 15 minutos.

33.
Quem desdenha quer comprar, quem disfarça está escondendo, mas quem desdenha e disfarça, não sabe o que está querendo.

34.
Nem todo rico tem carro, nem todo ronco é pigarro, nem toda tosse é catarro, nem toda mulher eu agarro.

35.
Quem diz que futebol não tem lógica ou não entende de futebol ou não sabe o que é lógica.

36.
A diferença entre o religioso e o carola é que o primeiro ama a Deus, o segundo, teme.

37.
Pediatra sempre capricha na pronúncia quando anuncia sua especialidade, pra evitar mal-entendidos.

38.
Nem todo gordo é bom, muitos se fingem de bonzinhos porque sabem que correm menos.

39.
Tinha tal pavor de avião que se sentia mal só de ver uma aeromoça.

40.
Mulher e livro, emprestou, volta estragado.

41.
O sol nasce para todos, a sombra pra quem é mais esperto.

42.
Da minha janela vejo o pátio de um colégio e quando a campainha toca para o intervalo das aulas, eu paro de trabalhar e fico olhando, como se estivesse no recreio, também.

43.
O importante é não deixar nunca que o menino morra completamente dentro da gente. Caso contrário, ficamos velhos mais depressa. Dizem que é por isso que os chineses, de incontestável sabedoria, conservam o hábito de soltar papagaio (ou pipa, se preferirem) mesmo depois de adultos. Não sei se é verdade, nunca fui chinês.  

Primo Altamirando.jpg

 

Biografia do Primo Altamirando
 
Primo Altamirando é nosso consanguíneo apenas por parte de pai, como aliás devem ser todos os parentes. Porque consanguíneos por parte de pai e de mãe, só mesmo irmãos, pois primos que casam com primos, dá sempre em bronca. Tia Zulmira costuma dizer: Padres, Primos e Pombos — os dois primeiros não servem para casar, os dois últimos só servem para sujar a casa. Como sempre, a velha tem razão.

Assim o nosso abominável parente é primo por parte de pai (Gumercindo Tenório Ponte Preta), mesmo porque, nunca teve mãe. Um dia, Gumercindo entrou em casa com um embrulho debaixo do braço, um embrulho de jornal — se não nos falha a História, o jornal O Dia — e disse para Tia Zulmira:

— Trouxe isto para você, Mamãe.

Como Gumercindo nunca fora de dar nada a ninguém, todos correram para ver o que era. Desembrulharam o presente — era Mirinho. Tio Gumercindo tinha trazido a criança para a velha criar na sua chácara da Boca do Mato, recusando-se solenemente a dizer quem era a mãe (de Mirinho, naturalmente), talvez encabulado com o que andara fazendo 9 meses antes do episódio ora relatado.

Hoje Tia Zulmira defende a tese de que Mirinho é de chocadeira, porque um sujeito com um caráter deletério como é o do primo, não pode ter tido mãe de jeito nenhum. Mas, passemos aos dados biográficos.

Mirinho nasceu no ano da desgraça de 1926. Para que vocês tenham uma idéia de como foi diferente o ano de 1926, basta lembrar que, nesse ano, o São Cristóvão foi campeão carioca. Aos cinco anos de idade, Mirinho conseguiu um fato inédito na vida dos maus caracteres existentes em todo o mundo: foi expulso do Jardim da Infância. A professora pegou-o, no recreio, falando mal de São Francisco de Assis.

Graças aos mais rebarbativos processos de tortura chinesa, Mirinho conseguiu ao menos se alfabetizar, abandonando os estudos no 4º ano primário para fugir com a professora de Ciências Físicas e Naturais, matéria que fazia parte do curso na época e que o primo resolveu estudar a fundo, para tanto raptando a mestra e inaugurando sua vida amorosa de forma escandalosa, como — de resto — tem sido até hoje sua vida nesse setor.

Aos 15 anos era um esplêndido marginal, com curso intensivo do SAM e ninguém tinha dúvidas de que haveria de superar o pai nisso de ser inimigo de todos os códigos, desde o penal ao de trânsito. O pai tinha como uma de suas glórias a idéia que um dia deu ao Barão de Drumond, para inaugurar o jogo do bicho; o filho superava longe Gumercindo, tantas e tais foram as suas delinquências juvenis.

A Secretaria de Agricultura do Estado da Guanabara deverá eternamente este serviço ao nefando parente: foi ele o primeiro sujeito a plantar maconha no Rio de Janeiro.

Querer ressaltar as principais fases da vida desse cretino é um pouco difícil, pois não houve ano em que não bolasse uma safadeza qualquer, dessas de encabular filisteu. Tinha 15 anos incompletos quando fez a primeira freira pular muro de convento e ainda menor impúbere, mobilizou toda a polícia carioca para descobrir quem é que andava ajudando as adutoras do Guandu a furarem os canos com mais frequência. Era ele.

As pequenas provas de um mau caráter, que as outras crianças costumavam dar com a idade de 10 aos 15 anos, Mirinho as deu ainda de fraldas, tais como botar o canarinho no liquidificador, amarrar e acender foguetão no rabo do gato, passar pimenta na dentadura da avó, atear fogo na saia da babá (a ama seca de Mirinho era boa que só vendo, e ele levou uma surra homérica do pai, porque ao botar fogo na saia dela, quase queima o principal).

Até mesmo Tia Zulmira, de natural tão compreensiva, perdeu a paciência com ele, quando Mirinho ainda nem falava direito. A velha ficou justamente indignada porque Mirinho, na hora em que ela foi ao banheiro, para um proverbial banho de assento, colocou uma perereca no bidê.

Não queremos dar ao leitor uma impressão falsa do nosso biografado. Pelo contrário, aqueles que estiverem pensando o pior do Primo Altamirando, ainda estão longe de fazer idéia de como ele é. No entanto, tem bom coração. Quando Al Capone morreu — por exemplo — Mirinho usou gravata preta e fumo no braço durante um mês. Ficou muito sentido com o falecimento desse seu ídolo.

Nestes 35 anos de sua vida, já cometeu desatinos para uns dois séculos, no mínimo, e não há setor da sociedade em que tenha se metido sem deixar para sempre os vestígios de sua passagem.

Ainda rapazote, deu-se à lides esportivas, principalmente ao futebol. Foi o primeiro desportista a dar uma gruja ao adversário para amolecer o jogo.

Suas atividades políticas também são interessantes. Foi Mirinho quem aconselhou Adhemar de Barros a largar a medicina para se dedicar à vida pública (não contente, fez a mesma coisa, alguns anos depois, com um médico muito alegrete de Diamantina, um tal Juscelino). Ainda como político, aconselhou as autoridades a reabrirem as câmaras de vereadores de todos os municípios brasileiros e correu o Brasil de norte a sul, ensinando aos edis eleitos a arte do jabaculê, da mamata e das grandes negociatas.

Teve grande influência nas redações de nossas principais folhas informativas, insistiu muito para que se desse uma oportunidade aos cronistas mundanos e fez ver aos secretários de redação que isso da imprensa orientar o povo é besteira. O ideal é dar destaque aos crimes hediondos, para o incremento dos mesmos e a consequente abundância de notícias para os jornais.

No dia em que descobriu que este seu primo Stanislaw estava fazendo sucesso na imprensa, fez um curso de jornalismo de araque e foi ser repórter policial. Há inclusive, neste livro, uma passagem de suas atividades como repórter policial.

— Plantar para colher! — costumava dizer o debilóide.

Mas, hoje Primo Altamirando, embora nunca tivesse trabalhado, resolveu se aposentar. Abriu um escritório de corretagem, para contrabando, tráfico de entorpecentes e prostituição em massa. É do que vive, embora não precisasse disso, pois nunca deixou de ser gigolô de certas velhotas ricas da sociedade, que lhe dão do bom e do melhor, e lhe pagam em dólar, conforme ele mesmo exige, para não ficar desmoralizado no mundo do crime. Tem certeza de que poupa a humanidade porque poderia explorá-la muito mais.

Enfim: um homem realizado.
 
 
Sérgio Marcus Rangel Porto (Rio de Janeiro, 11.01.1923—30.09.1968) foi um cronista, escritor, radialista e compositor brasileiro.
Mais conhecido por seu pseudônimo Stanislaw Ponte Preta.
Além de autor do "Samba do Crioulo Doido" que fez um sucesso espantoso durante décadas, é o pai do FEBEAPÁ, sigla de FESTIVAL DE BESTEIRAS QUE ASSOLA O PAÍS.
Naquela época, muito menos que hoje, o Brasil já era assolado por toda a espécie de sem-
vergonhice e corrupção.
 
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