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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Paulo Garfunkel

Paulo Garfunkel 01.jpg

  

Índice Coisas ◦ Índice Geral

Mínimas 

 

001. 
Descartes já houvera dito
que enunciar um problema
é tê-lo meio resolvido.
Destarte, entre a inércia e a libido,
e sendo iconoclasta um tanto,
resolvê-lo, nem tento.
Me bastam cinqüenta por cento.

002.
Isso já é vício, desista!
Visto que o fetiche
Virou contra o fetichista. 

003. 
A condição humana me cansa
Na próxima encarnação
Quero ser um cão na França
(Francês não chuta cachorro, chuta criança)

004. 
Tudo me foge
Hoje sou nenhum
E o que é pior
Esta dor
Não vale um
Valium

005.
Isso não é poesia!
‘Cê se ilude, cara
Isso é só melancolia lúdica

006.
Poesia é pra ser lida em voz alta
E poesia, na vida, é o que não falta

007.
Solidão
É não dar na veneta
Nem musa
Pra punheta

008.
...e sempre a saudade oblíqua
daquela sereia longínqua

009.
Meu ego é cego
Já o superego, não nego:
verdadeiro pelego

010. 
No momento crucial,
O zíper me mordeu o pau
E, cínico, se riu

011.
Primeira noite de inverno
Que entre a triste estação
e me encontre em meu quarto, quieto.
enrodilhado feito um feto
no ventre da solidão.

012.
Mais uma vez procuro:
Murro em ponta de faca.
Mais uma vez um burro
Dando com os burros n’água (01) 

013.
Bar vazio
Peito deserto
Noturno vento frio
E nem eu mesmo por perto

014.
Sob longos cílios sombrios
O brilho furtivo do olhar
Luz morena
Luar aprisionado em cisterna

015.
O ideal
Tá na ideia
A real
Um dia depois da estreia

016.
Nós, Capricórnios, e o relógio:
Cada dentada da engrenagem
Age em nossas vidas
Ora rumina as horas perdidas
Ora devora as horas de ócio

017.
Se a fruta
Se diz fruta
Desfruta de si

018.
Vento de Iansã
E a folha seca
Num instante
Vira borboleta

019.
Poesia
Dia-a-dia
A vida rima
Sozinha? (02)

020.
Eu, voraz
Ela, nos acabamentos finais
Acabamentos que não acabam mais

021.
Se uma mosca te perturba
Livre-se do desejo de matá-la
Depois: mate-a.

022.
Eu adoraria vê-la
Entrando por aquela porta.
Ela quem?
Não importa.

023.
Esse mistério é aquela coisa
Eu fico pasmo
Pois, se o homem, que é bobo, goza.
A mulher, leva a sério
E tem orgasmo

024.
Vazio?
Completamempty

025.
O outorgante é um purgante
O outorgado está cansado

026.
Consta.
Não obstante
não é o bastante
Tudo obsta,
Bela bosta!

027.
O gênio do mal
Contra o bobo do bem
Quem vencerá?

028.
Noite e dia
O tempo corre ou escorre
Rápido, lento
Ávido, sonolento
Sempre em contratempo
Tempo à revelia

029.
Encaro a lua cheia
Meu olho chora
E agora: chega!

030.
Paira a dúvida no ar
Atrás da orelha, se esgueira a pulga
Sei que algo vai mudar
Na maneira como ela me julga

031.
Através dos cães enxerguei a amizade
Das mulheres, a inconstância
Dos gatos, a dignidade
Dos homens, a ignorância

032.
Quem deve?
Quem é credor
Quando a paixão evapora?
O que eram juras de amor
Agora são juros de mora

033.
Nossas frangas se estranharam
Feito dois galos de briga
Onde tem mulher tem intriga

034.
Despertador
Aspirador
Liquidificador
...melhor tomar um analgésico

035.
Beleza tênue, momentânea
Pérola de orvalho
Em teia de aranha

036.
Tardezinha
Noite e dia
Misturam tintas

037.
No outro barco ela acaricia a pele do rio
Aqui no meu barco eu também acaricio
Ela nem viu
Mas sei: Oxum sentiu

038.
Céu de chumbo
Rio de chumbo
A chuva alcança o barco
Água sobre água
Mundo monocromático

039.
Chamam “Sensitiva” à flor
que se fecha ao toque.
O contrário seria
Se fosse moça

040.
Feliz a brisa
Que te alisa
Com ares de cortesã
Delícia de carícia de Iansã

041.
Hoje
Seu cheiro
Cinzas de incenso

042.
Em terra de cego
Quem tem um olho,
É mestre em semiótica?

043.
Tem marmelada,
tem goiabada...
e, ás vezes, diante da beleza,
uma doce tristeza:
Tristezada!

044.
Água parada
Má água
Mágoa
Estagnada esta tristeza escura
E o olho d’água que espelhava a lua
Agora turva refletindo nada

045.
Inda agora
tava chorando de soluçar
quando lá fora
na luz solar,
à-toa voa leve
uma borboleta branca
e aquela dor
já de nada serve
e, obsoleta,
estanca
Borboleta branca
Que brinca no ar
Quebra minha lágrima

046.
Ontem a noite não era eu
Era um primo do interior
Do meu interior
O nome dele é Hide, Mr.Hide

047.
Faça um Hai-Kai sem pensar
Relaxa deixa baixar
E quando baixar:
Bashô

048.
Com’ è pazza
La testa del cazzo*
(*só rima com sotaque napolitano)

049.
Borboleta amarela
Pelo olhar a dentro
Quem dera
Vá florescer no deserto

050.
No céu
De casaca
O urubu rege o vento

051. 
Flertávamos em paz, mas
Chegou seu namorado
Inoportuno, inesperado
Feito um peido molhado

052. 
Ela sem concorrentes
Eu com correntes

053.
Viver é empilhar momeintos
Cuidado com desmoronameintos *
(*sotaque paulista)

054. 
Na Praia da Lua
Um singelo cemitério
Onde a morte paira leve

055.
Passa um bando de maritacas
Incrível como elas tem assunto!

056.
(Por quais descaminhos a paixão escorre?)
E quanto custa a desencarnar um sonho quando morre?

057. 
Deitado no vento
De asa parada
O gavião cruza o Negro
Cá embaixo
Ouço sua risada

058. 
Bela!
E não existe, suponho
Mas, ela insiste
em me aparecer em sonho

059. 
Longo é o momento que precede a luta
Curta é a prece de um guerreiro

060. 
Segunda-feira plena
À hora do meio dia
Vou dar um telefonema na rua
Com Theodoro, menino
Cria do Liberino
O próprio anjo de cara suja
Sob um sol a pino
No céu azul
Nós jogamos um dinheirinho pro Exu
Que escreve torto por linhas certas
Doutor da mutreta e da alegria
Exu me soprou a letra e a melodia

061. 
É irrequieta
É espoleta
É serelepe
Eta moleque
Em pele de menina
Que alucina, desatina
E se intromete
Ela é vedete
Ela é valente
É Valentina

062. 
Um passado distante
Por um instante vem à tona
Numa esquina de Barcelona

063. 
Tudo conspira
Me tira o sossego
A começar
Comigo mesmo

064. 
Mero palavrório!
Faça de suas suposições
Um belo supositório

065. 
Manaus:
Um menininho ao meu lado
Assovia feito um bem-te-vi
Maravilhado
Descobriu um passarinho em si

066. 
Velha seqüela
Sempre qüela
Não me reconheço sem ela

067. 
Isto, isso
Aquilo, aquilo outro
E pronto
Vou de encontro ao desencontro

068.
Me afogo
Quando penso
Que o céu
É um oceano suspenso

069.
Eu mesmo me crucifico
Depois choro ao pé da cruz
Ladies and gentlemen:
The self-comiseration blues

070.
Seja bem-vindo, Poeta
Quisera criar planetas
com as formas perfeitas
dos seus poemas (03)

071.
Manhã noturna
Seu perfume me acorda
Memória do corpo

072.
A floresta não tem pressa
Mata devagarinho
Carinho às avessas

073.
Os tais “Homens de Bem”
Estão mais pra homens de bens
Do que pra homens do Bem

074.
Ponho à prova
A caneta nova
Nada a dizer
Apenas a pena a correr

075.
Meteste os pés pelas mãos
E mais uma vez
As mãos pelos pés
Meteste os pés pelas mãos
Tu és meu irmão
Tu és o que és (04)

076.
A floração da palmeira se abriu
E, soberana, reina à beira rio
Coroa branca, inteira reluziu
Oxaguiãn guerreiro então sorriu
Ouço a canção da lâmina zunindo
A clara lâmina do raciocínio
Sol da manhã, orvalho cristalino
Oxaguiãn guiando meu caminho
Mão na mão de pilão
Amassa a massa de inhame
Chame Oxaguiãn pra comer
Antes que ele se zangue (05)

077.
Desengonçado de dar dó de ver
Como é ridículo seu passo bípede
Como seu bico loucamente insiste
Em cutucar carniça
Bicho lixeiro, preto, feio, azarão
Vai pro seu reino abre asas zomba do chão
Bonito é saber voar
Urubu (06)

078.
A paixão é um estado de graça
Que acaba saindo caro

079.
Colos, orelhas, omoplatas
Pernas, olhares, meios sorrisos
Pés, mãos, umbigos
Eu olho, escolho
Classifico, mitifico
Tudo por amor
Meu nome?
Jack, o estripador

080.
Olho no olho: jogo
E logo, fogo

081.
A vida é ávida

082.
Um corte em nossa história
Seu cheiro
Agora mora na memória

083.
De repente
perco o centro
Quem é quem
aqui dentro?

084.
Retrô, revival, releitura
O futuro foi hoje

085.
Estilhaçado
um caco me corta
E mais além
um outro brilha?

086.
Na Quarta de cinzas
Pensar na Fênix
Faz bem ao fígado

087.
A noite esfacela-se
Edifica-se às avessas
Negros arco-íris em si (07)

088.
Noite em São Paulo
Meu olhar vasculha o céu nublado
Imagino estrelas

089.
Tenho andado dividido
Endividado comigo

090.
Que Santa que te orienta
Que Santa que te governa
A dona da tua cabeça é quem?
O tanto que tu me atenta
É o tanto que tu me inferna
Oh bela, que tanta Santa tu tem?

091.
Fidelidade ?
Uns poucos, menos desequilibrados
Quando muito,
conseguem ser fiéis a si mesmos.

092.
Os fins justificam em@ils?

093.
Yo no creo en las mujeres
Pero que las hai, las hai!

094.
Sombra e luz
Quem traduz seu sorriso?
Olhos de avelã
Amanhã...
É preciso?

095.
Nem tudo está perdido
Cães, crianças e mendigos
Param pra falar comigo

096.
O passado me acusa
E já tenho
Alguma idade
Eu sempre quis uma musa
Nunca uma mulher
De verdade

097.
Reminiscências de Rimini
Riminiscências de Fellini

098.
Uma coisa é certa:
O projeto deu defeito
A humanidade?
Que idéia!
Milhares de containers imperfeitos
Repletos de vaidade, medo e merda
E quem não for deste jeito
Que atire a primeira pedra

099.
Me diga como é que pode
Que é tanto que o bode fode
Que quando a farra se acaba
É a cabra que fica de bode

100.
Verdadeira farsa
Vira e mexe
Minha máscara
Se esgarça

101.
Patético
De tão simpático
Vou acabar diabético

102.
Contar, nas profundezas, a pulsação da mãe
As luas pra nascer
Os dedos da mão
Os dias de férias
Na ilusão dos números
Contar as estrelas
As mulheres que amou
As tantas que não
O dinheiro que (não) juntou
Os compassos de espera
As horas de tédio
Histórias pros filhos, pros netos
Contar com poucos e bons amigos
Com a existência de (um) Deus
Contar as gotas de remédio
Os minutos do fim
Os quilômetros do infinito

103.
Esse negócio de monoteísmo
Não há Cristo que aguente

104.
Pra que afeto
Se formam um par perfeito
A mulher objeto
E o homem abjeto?

105.
Muito cuidado com as falsas magras!
Pois, podem se transformar
em verdadeiras gordas.

106.
Nesta história
Não vejo bem o papel que fiz
talvez, se eu tirasse a bolinha vermelha
da ponta do meu nariz...

(01) Com Jean Garfunkel
(02) Para Mário Quintana
(03) Para João Cabral
(04) Para Jean, com sotaque português
(05) Para Oxaguiãn
(06) Com Prata
(07) Com Jean

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