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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Monteiro Lobato

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01.

De escrever para marmanjos já estou enjoado. Bichos sem graça. Mas, para crianças um livro é todo um mundo.

02.
É errado pensar que é a ciência que mata uma religião. Só pode com ela outra religião.


03.
O livro é uma mercadoria como qualquer outra; não há diferença entre o livro e um artigo de alimentação. Se o livro não vende é porque ele não presta.


04.
Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos.

05.
A vida, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.

06.
DIÁLOGO ENTRE EMÍLIA E O VISCONDE
A vida das gentes neste mundo, senhor Sabugo, é isso. Um rosário de piscados. Cada pisco é um dia. Pisca e mama, pisca e brinca, pisca e estuda, pisca e ama, pisca e cria filhos, pisca e geme os reumatismos, e por fim pisca pela última vez e morre.
— E depois que morre? — perguntou o Visconde. 
— Depois que morre, vira hipótese. É ou não é? 

07.
Loucura? Sonho? Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira — mas tantos sonhos se realizaram que não temos o direito de duvidar de nenhum. 

08.
Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos, ou não somos coisa nenhuma.

09.
A mulher não é inferior nem superior ao homem. é diferente. No dia em que compreerdemos isso a fundo, muitos mal-entendidos desaparecerão da face da terra.

10.
Um país se faz com homens e livros. 

11.
A natureza criou o tapete sem fim que recobre a terra. Dentro da pelagem deste tapete vivem todos os animais respeitosamente. Nenhum o estraga, nenhum o roi, exceto o homem.

12.
Quem tem força, abusa. 

13.
A Natureza só permite aos gênios uma filha: sua obra. 

14.
No fundo não sou literato, sou pintor. Nasci pintor, mas como nunca peguei nos pincéis a sério, arranjei, sem nenhuma premeditação, este derivativo de literatura, e nada mais tenho feito senão pintar com palavras.

15.

A luta contra o erro tipográfico tem algo de homérico. Durante a revisão os erros se escondem, fazem-se positivamente invisíveis. Mas, assim que o livro sai, tornam-se visibilíssimos, verdadeiros sacis a nos botar a língua em todas as páginas. Trata-se de um mistério que a ciência ainda não conseguiu decifrar.

15.
Nada de imitar seja lá quem for. Temos de ser nós mesmos. Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir. 

15.
ANIMAIS E A PESTE
Em certo ano terrível de peste entre os animais, o leão, mais apreensivo, consultou um macaco de barbas brancas.
— Esta peste é um castigo do céu – respondeu o macaco — e o remédio é aplacarmos a cólera divina sacrificando aos deuses um de nós.
— Qual? — perguntou o leão.
— O mais carregado de crimes.
O leão fechou os olhos, concentrou-se e, depois duma pausa, disse aos súditos reunidos em redor:
— Amigos! É fora de dúvida que quem deve sacrificar-se sou eu. Cometi grandes crimes, matei centenas de veados, devorei inúmeras ovelhas e até vários pastores. Ofereço-me, pois, para o acrifício necessário ao bem comum.
A raposa adiantou-se e disse:
— Acho conveniente ouvir a confissão das outras feras. Porque, para mim, nada do que Vossa Majestade alegou constitui crime. São coisas que até que honram o nosso virtuosíssimo rei Leão.
Grandes aplausos abafaram as últimas palavras da bajuladora e o leão foi posto de lado como impróprio para o sacrifício.
Apresentou-se em seguida o tigre e repete-se a cena. Acusa-se de mil crimes, mas a raposa mostra que também ele era um anjo de inocência.
E o mesmo aconteceu com todas as outras feras.
Nisto chega a vez do burro. Adianta-se o pobre animal e diz:
— A consciência só me acusa de haver comido uma folha de couve da horta do senhor vigário.
Os animais entreolharam-se. Era muito sério aquilo. A raposa toma a palavra:
— Eis amigos, o grande criminoso! Tão horrível o que ele nos conta, que é inútil prosseguirmos na investigação. A vítima a sacrificar-se aos deuses não pode ser outra porque não pode haver crime maior do que furtar a sacratíssima couve do senhor vigário. Toda a bicharada concordou e o triste burro foi unanimamente eleito para o sacrifício.
Moral da história:
Aos poderosos, tudo se desculpa… Aos miseráveis, nada se perdoa.

17.
Quem acredita em alguma coisa sempre acaba levando na cabeça.

18.
Seja você mesmo, porque ou somos nós mesmos ou não somos coisa nenhuma.

19.
A consciência do homem comum mora no bolso.

20. 
Tudo vem dos sonhos. Primeiro sonhamos depois fazemos.

21.
A mim me salvaram as crianças. De tanto escrever para elas, simplifiquei-me. 

22.
Assim como é de cedo que se torce o pepino, também é trabalhando a criança que se consegue boa safra de adultos.

23.
ASSEMBLEIA DOS RATOS
Um gato de nome Faro-Fino deu de fazer tal destroço na rataria duma casa velha que os sobreviventes, sem ânimo de sair das tocas, estavam a ponto de morrer de fome.
Tornando-se muito sério o caso, resolveram reunir-se em assembleia para o estudo da questão. Aguardaram para isso certa noite em que Faro-Fino andava aos mios pelo telhado, fazendo sonetos à lua.
— Acho — disse um deles — que o meio de nos defendermos de Faro-Fino é lhe atarmos um guizo ao pescoço. Assim que ele se aproxime, o guizo o denuncia e pomo-nos ao fresco a tempo.
Palmas e bravos saudaram a luminosa ideia. O projeto foi aprovado com delírio. Só votou contra, um rato casmurro, que pediu a palavra e disse — Está tudo muito direito. Mas quem vai amarrar o guizo no pescoço de Faro-Fino?
Silêncio geral. Um desculpou-se por não saber dar nó. Outro, porque não era tolo. Todos, porque não tinham coragem. E a assembleia dissolveu-se no meio de geral consternação.
Moral da estória: falar é fácil; fazer é que são elas.

24.
Quem escreve um livro cria um castelo, quem o lê mora nele.

25.
Para querer ter bons amigos, é preciso saber se você tem um.