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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Mário Quintana

 Quintana Fotos 04.jpg

  
Índice Coisas ○ Índice Geral

001.
UM CÉU COMUM
No céu vou ser recebido
com uma banda de musica.
Tocarão um dobradinho
daqueles que nós sabemos
— pois nada mais celestial
do que a música que um dia ouvimos
no coreto municipal
de nossa cidadezinha...
Não haverá citaras nem liras
— quem pensam vocês que eu sou?
E os anjinhos estarão vestidos
no uniforme da banda,
com os sovacos bem suados
e os sapatos apertando.
Depois, irei tratar da vida
como eles tratam da sua...

002.
A MISSA DOS INOCENTES
Se não fora abusar da paciência divina
Eu mandaria rezar missa pelos poemas que não conseguiram ir além
da terceira ou quarta linha... —

003.
VERÃO
O Verão é um senhor gordo, sentado na varanda, suando em bicas e reclamando cerveja.

004.
IMAGINAÇÃO
A imaginação é a memória que enlouqueceu.

005.
FUNÇÃO
Me deixaram sozinho no meio do circo
Ou era apenas um pátio uma janela uma rua uma esquina
Pequenino mundo sem rumo
Até que descobri que todos os meus gestos
Pendiam cada um das estrelas por longos fios invisíveis.

006.
INCORRIGÍVEL
O fantasma é um exibicionista póstumo.

007.
ZOOLOGIA
Os golfinhos são os aqualoucos do mar.

008.
ARTE POÉTICA
Os poetas que dizem tudo não dizem nada: fazem relatórios...

009.
CORAGEM
A verdadeira coragem consiste em não se importar com a opinião dos outros — mas como custa!

010.
TRISTE MASTIGAÇÃO
As reflexões dos velhos são amargas como azeitonas.

011.
AS COISAS DESTE MUNDO
"Afaste-se das coisas deste mundo" — disse-lhe o padre na hora extrema.
Ele, então, virou-se para o outro lado...

012.
NIPONICES
A vantagem das japonesas é que, quando se tornam mães,
continuam brincando com bonecas.

013.
NOTURNO INTERIORANO
Ruazinha em ziguezague, especialmente feita para bêbados,
ladeiras para penitentes, o oásis de um boteco na esquina.
Lá — alto, a lua, sonambulando...

014.
DESCANSE EM PAZ
Essas horrendas coroas de biscuit que dizem: DESCANSE EM PAZ...
Como descansar em paz com um troço desses?!

015.
CONVERSA FIADA
... e prometo àqueles meus professores desiludidos que
na próxima vida eu vou ser um grande matemático.
Porque a matemática é o único pensamento sem dor.

016.
TEMPOS FELIZES
Tempos felizes aqueles tempos de guerra,
a gente pensava que tudo ia melhorar depois...


017.
ANONIMATO
O que há de mais triste com esses bustos de prata
pública não é que ninguém saiba quem sejam: é que
ninguém pergunta quem são.

018.
COINCIDÊNCIA
Às vezes a gente pensa que está dizendo bobagens
e está é fazendo poesia.

019.
TEMPO BOM
E agora esse ventinho metido a Fígaro parece que está me fazendo a barba.
O céu está deslavadamente claro.

020.
TRINTA E UM DE DEZEMBRO
Está na hora
De espanar as teias do baú vazio
E enchê-lo de novas esperanças...

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021.
OS SILÊNCIOS
Não é possível amizade quando dois silêncios não se combinam.


022.
IDADE
Estou nessa idade em que o juiz consulta o relógio
e as arquibancadas já vão se esvaziando...

023.
AUTENTICIDADE
Seja um poema, uma tela, o que for, não procure ser diferente.
O segredo está em ser indiferente.

024.
O CIRCO E O MENINO
A moça do arame ia deslizando e despindo-se.
Lentamente.
Só para judiar.
E eu com os olhos cada vez mais arregalados
até parecerem dois pires.

025.
DIA DO MÉDICO
O grande sonho dos médicos é fazer os clientes morrerem
com saúde.

026.
DOS LIVROS
Há duas espécies de livros: uns que os leitores esgotam,
outros que esgotam os leitores.

027.
DA PREGUIÇA
A preguiça é a mãe do progresso. Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.

028.
OUTRA OPORTUNIDADE
E se me dessem — um dia — uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente...
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

029.
A MORTE
A morte deveria ser assim:
um céu que pouco a pouco anoitecesse
e a gente nem soubesse que era o fim...

030.
CIDADES PEQUENAS
Só nessas cidadezinhas humildes é que ainda chamam
Deus de Nosso Senhor...

031.
POEMINHA DO CONTRA
Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

032.
CONVERSA BEM BRASILEIRA
— Desculpe, minha senhora, mas não consigo lembrar-me
se a conheço do ultimo carnaval, da ultima greve,
ou da ultima enchente...

033.
VIAGEM FUTURA
Um dia aparecerão minhas tatuagens invisíveis:
Marinheiro do além, encontrarei nos portos
Caras amigas, estranhas caras, desconhecidos tios mortos,
E eles me indagarão se é muito longe ainda o Outro Mundo...

034.
EXEGESES
Se um poeta consegue explicar tudo o que quis dizer
com um poema, o poema não presta.

035.
A CASA GRANDE
A casa me assustava mais do que o mundo, lá fora.
A casa era maior do que o mundo!
E até hoje — mesmo depois que destruíram a casa grande —
até hoje eu vivo explorando os seus esconderijos...

036.
PERGUNTA INOCENTE
Mas, se as bruxas tem tantos poderes — por que são
sempre tão velhas, tão feias, tão pobres, tão sujas?

037.
AS ILUSÕES PERDIDAS
Fumar é um jeito discreto
de se ir queimando as ilusões perdidas.
Daí esse ar entre aliviado e triste dos fumantes solitários.

038.
CAUTELA
Recomendações do tio Pedro, quando eu era gurizote:
"Não mexe com as negras, que elas estão sempre
com a boca cheia de mãe".

039.
AH! É?
Acabo de ler, num artigo de jornal, que pertenço à "antiga geração".
Deve ser por isso que me sinto tão arejado como um velho
casarão de vidraças partidas.

040.
OS INTOCÁVEIS
A ironia atinge apenas a inteligência.
Inútil desperdiçá-la com os que estão longe do seu alcance.
Contra estes ainda não se conseguiu inventar nenhuma arma.
A burrice é invencível.

041.
CRICRI
A noite dorme um sono entrecortado, alfinetado de grilos.

042.
DA BOA E MÁ IGNORÂNCIA
A ignorância rasa e simples é coisa honesta desanuviando o entendimento.
Mas, Deus te livre, meu filho, da ignorância complicada.

043.
DO FOLCLORE
O mal dos que estudam as simpatias e outras superstições é não acreditarem nelas; isso os torna tão incompetentes como um biologista que não acreditasse em micróbios.

044.
SALA DE ESPERA
Há criaturas que não vivem: apenas estão fazendo hora para morrer.

045.
TEMOR
A única coisa que eu temo na morte são os necrológios.
— Ah, esses adjetivos dos necrológios!

046.
ASTRONOMIA
Dizem os astrólogos que Saturno é taciturno. Mas só se for para rimar...
Com seus multicoloridos anéis ele é o único planeta do sistema solar que faz bambolê.

047.
INTRUSÃO
O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.

048.
MOTIVAÇÕES
Quando eu, guri, comecei a fumar, foi para bancar o homenzinho.
Mas que adiantou? Agora cigarro é vício de mulher...

049.
RECEITA
No dia em que estiveres muito cheio de preocupações,
imagina que morreste anteontem.
Confessa: tudo aquilo teria mesmo tanta importância?

050.
TRECHO DE CARTA
Se nunca nasceste de ti mesmo, dolorosamente, na concepção
de um poema, estás enganado: em poesia não há parto sem dor.

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 051.
A GRANDE SURPRESA
Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo!


052
REMISSÃO
Naquele dia fazia um azul tão límpido que eu me sentia perdoado não sei de quê!

053.
COM ESPANTO
Leio, com espanto, que uma senhora granfa, em depoimento contra o marido, afirma que este costumava conviver com poetas.

054.
UM RETRATO
Seus olhos grandes, redondos e pretos
Tempos depois ainda ficavam pregados na gente
Como botões...

055.
AS CAUDAS
Os pianos de cauda, as sobrecasacas, as caudas dos vestidos de noiva, tudo isso está sendo contrabandeado para o reino brumoso das lendas.

056.
O MAIS FEROZ
O mais feroz dos animais domésticos é o relógio de parede:
conheço um que já devorou três gerações da minha família.

057.
ESPORTE
O único esporte que pratico é a luta livre com o meu Anjo da Guarda.


058.
TRECHO DE CARTA
Não me lembro. Bem sabes que a minha memória é fraca.
Minha memória é um deserto, com alguns oásis, aqui e ali.
Isto sem contar com as miragens.

059.
INTERMEDIÁRIOS
Não me ajeito com os padres, os críticos e os canudinhos de refresco...

060.
O DEUS FRAJOLA
Vocês já imaginaram coisa mais ridícula do que um Deus vestido no rigor da moda?

061.
CARTAZ PARA TURISTAS
Viajar é mudar o cenário da solidão.

062.
MINIPAISAGENS
As janelinhas do trem, ao longo da viagem, vão tirando sucessivos cartões-postais da paisagem, o que sempre é melhor do que a gente ficar no meio de um vasto panorama — como uma vaca no campo.

063.
CASO CLÔNICO
O destino é o acaso atacado de mania de grandeza.

064.
DIA DO FUTEBOL
Descobri o famoso elo perdido entre o macaco e o homem:
são os torcedores de futebol.

065.
FALTA DE ASSUNTO
Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove
— não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo...

066.
INTERCÂMBIO
Vovô tem um riso de cobre — surdo, velho, azinhavrado — um riso que sai custoso, aos vinténs. Mas Lili, sempre generosa, lhe dá o troco em pratinhas novas.

067.
HISTÓRIA LITERÁRIA
Não há dúvida de que, depois do relaxamento romântico,
o parnasianismo foi uma boa ginástica. Deu uns belos rapazes.
Mas, ocos, ocos...

068.
HAI-KAI DA COZINHEIRA
A cozinheira preta preta
Preta e gorda
com seu claro sorriso de lua...

069.
POEMINHA DA AUSÊNCIA
Entre a minha casa e a tua
Há uma ponte de suspiros.

070.
METICULOSIDADE
Os velhos, quanto mais velhos, mais vírgulas usam.

071.
CANÇÃO DE MUITO LONGE
Onde andará agora o pince-nez da tia Tula
Que ela não achava nunca?
A pobre não chegou a terminar a Toutinegra do Moinho
Que saía em folhetim no Correio do Povo!...

072.
ETERNIDADE
A eternidade é um relógio sem ponteiros.


073.
CORTESIA
Nunca perguntes as horas perto de um defunto nem fales
em bolsas de senhoras perto de um crocodilo.

074.
ENVELHECER
Antes, todos os caminhos iam.
Agora, todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.


075.
INVERNO
O inverno é um vovozinho trêmulo, com a boina até os olhos, a manta enterrada nos queixos e sempre resmungando: "Eu não passo deste agosto. Eu não passo deste agosto..."

076.
TRATAMENTO MÉDICO
Os remédios que os médicos me receitam me fazem muito bem
porque me esqueço de tomar.


077.
OS RETRATOS
O pior dos nossos retratos é que vão ficando cada vez mais jovens do que nós. E chega um dia em que parecem nossos filhos!

078.
NOTURNO
Teus cabelos de náufrago
Estão bordados no brancor da fronha.
E onde foste arranjar essas mãos de cera
que parecem levemente luminosas no escuro?

079.
A MINHA ANTIGA CIDADE
Agora, aquela cidadezinha está dormindo para sempre
na sua redoma azul
em um dos museus do Céu.

080.
ANATOMIA
Eu queria mesmo era poder estudar teu corpo todo
com a mão
até sabê-lo de cor
— como um ceguinho...

081.
AMOR
Tu te abres como uma flor...
E, depois, o nosso olhar é límpido como as águas de um regato...

082.
DAS DESPEDIDAS
O mais doloroso das despedidas é quando — tanto o que vai seguir
como o que vai fica — põem-se os dois a pensar ao mesmo tempo:
— Meu Deus, mas quando é que parte o raio deste trem?


083.
PASSARELA
Um desfile de manequins, neste nosso desidratado século,
lembra-nos graciosas figurilhas feitas com paus de fósforos.

084.
UM POEMA
Eu sonho um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca.

085.
ESCADARIAS
Oh! não há como as escadarias daqueles antigos edifícios públicos
Para ser assassinado...

086.
COVARDIA
É uma covardia falar mal dos inimigos: só se deve falar mal dos amigos.

087. 
EXPLOSÃO
Ao calor do verão, as esferográficas dos escritores
morrem de derrame cerebral.

088.
TIMIDEZ
Eu me ponho a acariciar-te
Com a sombra dos meus dedos...

089.
O POETA COMEÇA O DIA
Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...

090.
DIA MUNDIAL DA SAÚDE
Mas se existem os doentes imaginários,
porque não poderia haver também um são imaginário?

091.
DIA DE PÁSCOA
Silenciosamente,
sem um cacarejo,
a Noite põe o ovo da Lua.

092.
NOTURNO
O sonho vai devorando os sapatos
Os pés da cama
O tempo.
Vovô resmunga qualquer coisa no fim do século passado.

093.
OS PORTEIROS
O belo fardamento da Academia de Letras
seria ótimo para os porteiros de um hotel de luxo.

094.
O OUTONO
O Outono é um tio solteirão que mora lá em cima no sótão
e a toda hora protesta aos gritos: "Que barulho é este na escada?!"

095.
NOS SOLENES BANQUETES
Nos solenes banquetes de próceres internacionais, em especial sobre desarmamento, às vezes o aparte mais sincero é o riso de prata da colherinha que por acaso tombou no chão.

096.
NATUREZA, ETC.
Não compreendo esses grandes hotéis sozinhos no meio da mata,
sob a alegação do clima, da natureza... A natureza é chata
como um cartão-postal em tamanho natural.

097.
MISTÉRIO
E aquele segredo sentava-se ali entre nós todo o tempo,
Como um convidado de máscara.
E nós bebíamos lentamente a ver se recordávamos.

098.
MATURIDADE
O primeiro sinal de maturidade é quando não mais se consegue
escrever em papel pautado — como um trapezista que afinal
dispensa a rede de segurança...

099.
X
O X da questão está de braços abertos, pedindo socorro.

100.
K
Abreviatura de kilômetro, uma letra que parece que já vai caminhando.

 

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101.
ELEFANTE
O dia em que desaparecer o ultimo elefante desaparecerá a bondade do mundo...

102.
DA COR
Essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos da ultima estação,
a voz das velhas damas,
os primeiros sapatos, certas tabuletas,
certas ruazinhas laterais: — a cor do tempo...

103.
SE EU MORRESSE AMANHÃ
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios da beleza única
De estarem inconclusos...

104.
NOTURNO
O relógio costura, meticulosamente, quilômetros e quilômetros do silêncio noturno.
De vez em quando, os velhos armários estalam como ossos.
Na ilha do pátio, o cachorro ladrando.

105.
EXCLUSIVIDADE
O azul-celeste só assenta bem no céu e o cor-de-rosa, na rosa:
uma feijoada azul-celeste seria intragável!...

106.
VERANICO
A cidadezinha modorreia... A tarde
Avança lentamente
Como uma tartaruga, com o casco coberto de poeira.

107.
DESPERDÍCIO
Oh! toda esta minha ternura inútil, desaproveitada!...

108.
NOTURNO
A Esfinge mia como uma gata.
E o seu grito agudo agita a insônia dos adolescentes pálidos,
O sono febril das virgens nos seus leitos.


109.
CALIGRAFIAS
Delícia de olhar, no céu, os vvvv dos vôos distanciando-se...

110.
OS VENTOS
O vento do deserto é um vento analfabeto. Mas o vento da cidade é um grande ledor de tabuletas.


111.
Meu bonde passa por ali.
Pela sua esquina, apenas.
É uma ruazinha tão discreta que logo faz uma curva e o olhar não pode devassá-la.
Não lhe sei o nome, nem nunca andei por ela.
Ficaremos sempre virgens um do outro.

112.
Há coisas que a gente não sabe nunca o que fazer com elas...
Um novo parente que se descobre.
A palavra "quincúncio".
Um cachorro anônimo que resolve ir seguindo a gente pela madrugada na cidade deserta.

113.
A última vez que vi tia Tula, ela ia dobrando aquele corredor escuro.
Ia encolhida, pequenina, humilde.
Seus passos não faziam ruído.
E ela nem se voltou para trás!

114.
Os letreiros luminosos deveriam ser escritos em chinês: o significado prejudica a beleza das coisas.

115.
Sabes? Perpassa no vento a alma dos pintores mortos, procurando captar, levar (para onde?) as cores deste mundo.
Que este mundo pode ser que não preste, mas é tão bom de olhar!

116.
A incessante inauguração do mundo era nos sábados à tarde — quando se abriam os portões dos internatos antigos.

117.
Se eu fosse fantasma, eu... não, não te faria nada:
o melhor do susto é esperar por ele.

118.
Não desças os degraus dos sonhos
Para não despertar os monstros.

119.
Essa coisa de a gente virar nome de rua é uma forma pública de anonimato.

120.
Era um caminho tão pequenino que nem sabia aonde ia...

 

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121.
Nunca deixes um quadro torto na parede: a simetria é a moral dos objetos.


122.
A minha poesia é um vício triste,
Desesperado e solitário
Que eu faço tudo por abafar!

123.
E eis que ressurge agora o novo homem das cruzadas,
isto é, das palavras cruzadas...

124.
A poesia não é uma coisa idiota: a poesia é uma coisa louca!

125.
Os espelhos partidos têm muitas luas.

126.
Me perdi no céu azul
e tu dormindo, sorrias.
Despetalei uma estrela
para ver se me querias.

127.
Agora era um outro dançar, outros os sonhos e incertezas.
Outro amar sob estranhos zodíacos... Outro...
E o terror de construir mitologias novas!

128.
Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O Arranha-céu comeu!

129.
Amar é mudar a alma de casa.

130.
O grande relógio de pêndulo parou,
O tempo está morto de pé dentro dele como um chefe Asteca.
Tento imaginar-lhe o rosto cheio de rugas, como o solo gretado de um deserto.

131.
A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer.

132.
São muitos que morrem antes, outros depois, o difícil é acertar a hora.

133.
Como seriam belas as estátuas equestres se constassem apenas dos cavalos!

134.
O tempo não pára! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo...

135.
O luar é a luz do sol que está sonhando.

136.
O que pode acontecer de mais chato no mundo é o chato que se chateia a si mesmo, o autochato.

137.
O hipopótamo é um bruto sapatão afogado.


138.
Ah! essas guerras civis feitas pelos militares...

139.
Nada foge mesmo ao seu destino histórico, seja um Império que desaba ou uma barata esmagada.

140.
A felicidade bestializa: só o sofrimento humaniza as pessoas.

141.
Tua saudade tem gosto de amora. O teu beijo tem gosto de pitanga.

142.
Sei de uma boa senhora que não podia comer galinhas a quem conhecia pessoalmente, do seu terreiro. Apenas saboreava as que provinham anonimamente do mercado público.

143.
A maior conquista do pensamento ocidental foi o emprego das reticências...

144.
Mas que susto não irão levar essas velhas Carolas se Deus existe mesmo.

145.
Na verdade, a coisa mais pornográfica que existe é a palavra "pornografia".

146.
Os moralistas condenam o que eles não têm: a coragem de participar.

147.
E o pobre Caruso cantava que te cantava afogado pelas águas do tempo, e por isso a sua voz era ainda mais pungente: não é brinquedo estar morto e continuar cantando.

148.
Os romanos tinham pouca vida interior porque não usavam botões.

149.
Ainda bem que foi Nosso Senhor quem fez o mundo. Se fosse Nossa Senhora, nós os homens é que teríamos de dar a luz.

150.
Era um desses países tão venturosos que todo mundo só conhecia esse país por intermédio das Palavras Cruzadas... Mas por que será que as histórias maravilhosas sempre se passam num país distante?

151.
A poesia é um ato de posse. Por isso é que os poetas fazem poesia na cama.

152.
Dizem que, cada vez que a gente respira, morre um chinês. Quem tem acesso de tosse, mata muitos chineses...

153.
A magia das palavras num poeta deve ser tão sutil que a gente esqueça que ele está usando palavras.

154.
Os poetas, com os seus moinhos de imagens, rodando e andando e rodando na manivela dos ritmos, mais parecem uns micos de realejo.

155.
Bem-aventurados os que não têm autocrítica, porque deles é o reino da Terra.

156.
A um poeta amigo: "Se passei tanto tempo sem te escrever foi simplesmente porque não me lembrava mais das mentiras que te havia contado em minha última carta. Tu bem sabes que..."

157.
Não é só quando eu estou trabalhando que as visitas importunam: é quando não estou fazendo nada.

158.
A verdadeira coragem consiste em não nos importarmos com a opinião dos outros... Mas como custa!

159.
O preço da poesia é a eterna liberdade... E aderir a determinada escola poética é o mesmo que internar-se voluntariamente, num asilo de incuráveis.

160.
Homem ilustrado: o homem que conhece as ilustrações dos livros.

161.
Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

162.
O ataque de uma borboleta agrada muito mais do que todos os beijos de um cavalo.

163.
A tarde é uma tartaruga com o casco empoeirado a arrastar-se penosamente, as sombras foram esconder-se debaixo da barriga dos cavalos, tudo parece uma infinita quarentena — mas está marcando exatamente meio-dia nos olhos dos gatos.

164.
O problema da solidão não consiste em saber como solucioná-la, mas em saber como conservá-la.

165.
No silêncio das noites soluçam as almas pelas torneiras das pias.

166.
A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

167.
Ser careca deveria arejar as idéias... Pelo menos, são os carecas que brilham mais.

168.
A verdadeira virtude está no sincero e no difícil arrependimento e não na inocência boboca.

169.
Andou fazendo nevoeiro.
De noite... que lindo!
Parece que estiveram passando borracha na paisagem.

170.
Repito que isso de a moda ser feia ou bonita é coisa que não tem mesmo importância nenhuma.
Nem para as mulheres nem para os homens.
Principalmente para os homens, porque o amor é cego...
Agora, sim, fui galante! Ou não fui?

171
O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.… E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver.


172.
É quase impossível hoje em dia encontrar chocolate com gosto de chocolate, iogurte com gosto de iogurte ou uma democracia apenas democrática.

173.
Nunca se deve deixar um defunto sozinho. Ou se o fizermos, é recomendável tossir discretamente antes de entrar de novo na sala. Uma noite em que eu estava a sós com uma dessas desconcertantes criaturas, acabei aborrecendo-me (pudera!) e fui beber qualquer coisa no bar mais próximo. Pois nem queira saber... Quando voltei, quando entrei inopinadamente na sala, estava ele sentado no caixão, comendo sofregamente uma das quatro velas que o ladeavam! E só Deus sabe o constrangimento em que nos vimos os dois, os nossos míseros gestos de desculpas e os sorrisos amarelos que trocamos.

174.
MENTIRAS
Lili vive no mundo do faz de conta...
Faz de conta que isto é um avião.
Zzzzzuuu...
Depois aterrizou em um piquê e virou um trem.
Tuc tuc tuc tuc...
Entrou pelo túnel, chispando.
Mas debaixo da mesa havia bandidos.
Pum! Pum! Pum!
O trem descarrilou.
E o mocinho?
Onde é que está o mocinho?
Meu Deus! Onde é que está o mocinho?!
No auge da confusão, levaram Lili para cama, à força.
E o trem ficou tristemente derribado no chão,
Fazendo de conta que era mesmo uma lata de sardinha.

175.
OS DEGRAUS
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros. 
Não subas aos sótãos — onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica. 
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

176,
MISTER WONG
Além do cohecido Dr. Jekyll e do resrecalcado mister Hyde, há também um chinês dentro de nós. Mister Wong. Nem bom nem mau: gratuito. Entremos, por exemplo, num teatro. Tomemos um camarote. Pois bem, enquanto o Dr. Jekyll muito compenetrado, é todo ouvidos, e Mister Hyde arrisca um olhar e a alma no decote da senhora vizinha, o nosso Mister Wong, descansadamente, põe-se a contar carecas na plateia.  Outros exemplos? Procure-os o senhor em si mesmo, agora mesmo. Não perca tempo. Cultive o seu Mister Wong.

177.
Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.

178.
O AUTO-RETRATO
No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...
e, desta lida, em que busco
— pouco a pouco —
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco! 

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Mário de Miranda Quintana (Alegrete, 30.07.1906 — Porto Alegre, 05.05.1994, aos 88 anos)
Poeta, tradutor, jornalista. Fez as primeiras letras em sua cidade natal.
Muda-se em 1919 para Porto Alegre. Estudou no Colégio Militar, publicando ali suas primeiras produções literárias.
Trabalhou na Editora Globo e depois na farmácia paterna. Considerado o "poeta das coisas simples", com um estilo marcado pela ironia, pela profundidade e pela perfeição técnica, atuou como jornalista quase a vida inteira.
Traduziu mais de 130 obras da literatura universal,

 

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