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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Chico de Assis

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01.

O amor do porco-espinho não é um amor proibido. Mas é total e profundamente dolorido.

02.
Paixão cega é quando a gente se apaixona por si mesmo dentro do outro.

03.
Amor é conivência, coisa de bandido.

04.
Senhor, deixa que eu seja como o riacho louco, que desenha em curvas inúteis sua própria estrada.

05.
Amigos é o que há de melhor na vida. Eu tenho amigos de ouro. Tenho amigos no mundo todo. Tenho amigos que foram ao céu e ao inferno. Tenho amigos num planeta azul no fim da galáxia. E eu sei que são todos meus amigos. E eu tenho até amigos que nem nasceram ainda.

06.
Há no mar uma certa quantidade de sangue. Só não sentimos o gosto... por costume.

07.
Sabe o que é o nada? O nada é uma faca sem cabo e sem lâmina.

08.
Sabe o que é a saudade? É o jeito triste da felicidade.

09.
Se caíres pela primeira vez... levanta. Se caíres pela segunda vez... levanta. Se caíres pela terceira vez, fica no chão. É o teu lugar.

10.
Deus antes de criar a mulher criou o diabo. Depois, deu à mulher sua maldade e ao homem, os seus cornos.

11.
O segredo de envelhecer numa boa, consiste em não querer mais ser jovem. Nem ao menos diante de uma mulher.


12.
Viver já foi perigoso. Agora, é um deus-nos-acuda!

13.
A pior lembrança dos velhos é a de não terem agido.

14.
A política é a arte de conviver com o adversário. A arte de vencer o adversário é a guerra.

15.
Nunca me perco.
Se perdem os que têm rumo.
Eu sou nave ao vento
Não tenho norte
Não tenho sul
Não tenho leste
Não tenho oeste
Não sou coisa que preste
mas tenho um bom coração
e nunca me perco não.

16.
Daí, o ermitão escalou a montanha e chegou ao pico da montanha. Daí, serenamente, mijou pra baixo sem o menor respeito. Eta ermitão filho da puta!

17.
Compadre Tião veio querer comprar meu cavalo baio. Chegou no sítio e começou a elogiar meu burrinho troncudo. Daí perguntou o preço de um cachorro paqueiro que eu tenho. Mas, na verdade eu sei que ele veio comprar minha vaquinha de leite. Antes de que ele dissesse, botei o dobro do preço nela, pra ele largar de ser besta.

18.
Namoro de menina nova com velho é que nem na pescaria quando peixinho miúdo belisca a isca mas não morde o anzol. Já namoro de mulher mais velha com menino novo é que nem traíra que morde, enrosca e leva pro fundo.

19.
Opinião, alma e bunda: coisas que todo mundo tem, mas tudo muito pessoal.

20.
POEMINHA PRO MARQUINHO
Poetas mineiros
a gente encontra
nos bares.
Não vão olhar a vida
mas levar ali uns versos.
Poeta mineiro
não tira verso da vida,
ao contrário; plantam
na realidade cotidiana
seus delírios.
Chegam, cercados de
bois e burros invisíveis
e mais: pepitas de ouro
sujas de terra negra;
fantasmas familiares
de avós de colete e
relógio de corrente.
Poetas mineiros
a gente topa
entre um gole e outro
de bebida forte
no limite da noite
e a madrugada.
Eles vêm com os bolsos
empanturrados de palavras
ainda por inventar.
Calmos e precisos
largam nas mesas
pedaços de frases
melancólicas, como iscas
de pescar lágrimas.
Poeta mineiro
não vende seus versos
pelo dinheiro do mundo.
Trocam.
Breganham verso por susto
estrofe por causo
poema por vida
imediata
Poetas mineiros
só escrevem
versos que não usam mais
Os úteis, reservam
como munição
para batalhas íntimas
de tertúlias
para o gozo da
farândola
Para a rosa de espuma
que deixa a cerveja
na boca da noite.
Poeta mineiro
não altissona
a beleza do verso
mas, silencia
o grito
e esculpe o verbo
na cacunda de um boi de pedra.

21.
O COELHINHO OU OS PERIGOS DA DEMOCRACIA
Monarquias são um pouco fora de moda, mas, democracia também tem os seus perigos. Uma professorinha de grupo escolar dando uma aula, chega a um ponto onde as crianças democraticamente discutem sobre coelhos. Uma parte da classe acha que os coelhinhos nascem da barriga da coelha, mas uma parte da classe acha que os coelhinhos nascem da barriga do coelhinho. A professorinha democrática e politizada resolve fazer uma eleição majoritária. Resultado é que o coelhinho ganha a eleição e lá fica nas cabeças e cadernos marcado o coelho mãe dos coelhinhos. Cuidado, democratas, a verdade é o limite.

22.
A TALAGADA
Estava em um botequim fazendo hora. Foi então que reparei que en-trou no local um trabalhador da construção civil com uma velha camisa rasgada da Universidade de Colúmbia e uma calça suja de cimento e cal. Nos pés, sandálias havaianas. Tinha os cabelos molhados de uma chuveirada recente.

Ele chegou esfregando as mãos como que para esquentar. Ergueu o dedão pra cima e o dedinho pra baixo, na direção do português do botequim. Português bateu no balcão o copinho como um martelo e ágil derramou até um pouco acima da linha de dose uma cachaça transparente. O trabalhador deu três ou quatro voltas no copinho e depois soltou e deu um passo para trás. Com um gesto largo e um sorriso ofereceu a todos no botequim. Daí enlaçou o copinho com três dedos da mão direita, espichou o pescoço como se oferecesse ao carrasco. Colocou a palma da mão esquerda sobre o peito e num brusco movimento levou a cabeça para trás bebendo a talagada. Bateu o copinho como um martelo na volta. Meteu a mão no bolso e pagou. Passou as costas da mão sobre os lábios. Fez um cumprimento geral e se foi esfregando as mãos.

Fiquei louco por uma talagada daquelas. Pedi ao português. Ele bateu o copinho. Eu virei a pinga e um gosto amargo e forte ofendeu a minha boca. Prazer nenhum. Daí refleti que para ter aquele mesmo prazer eu teria que ter passado a infância no cabo da enxada, lutando contra terra seca. Depois ter fugido de lá num pau de arara e comido o pão que o diabo amassou até ter uma profissão. Daí depois de um dia de sentar tijolo oito horas seguidas, tomar um chuveiro frio e tomar o néctar dos deuses.

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