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Marcos Resende Coisas

Marcos Resende Coisas

Coisas de Antônio Maria

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Índice Coisas ◦ Índice Geral

01.

E agora, com vocês, por mais incrível que pareça, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente — isto é: homem que desdenha do próprio coração). Profissão: Esperança.

02.

A única vantagem de se viver na companhia de uma mulher é a mulher. Aponte outra.

03.

É muito melhor estar mal acompanhado do que só. A única vantagem da solidão é poder entrar no banheiro e deixar a porta aberta.

04.

Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir bem direitinho, no mínimo quinhentas vezes que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem. Já a mulher pode não ter muita vergonha nos outros lugares, mas na cara tem. Não consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara nem mais um minuto.

05.

Gente que chama a própria mulher de minha senhora está sempre pensando que: 1º) Não acreditamos que eles sejam casados no civil e no religioso; 2º) No fundo, desconfiamos de que sua mulher lhe seja infiel.

06.

Quem tem mulher bonita, que vá enviuvar em Belo Horizonte. Mas nunca deixar uma viúva em Ipanema ou no Leblon.

07.

É perigoso ter muitas mulheres. Quem tem seis, por exemplo, tem cinco oportunidades de ser passado para trás.

08.

Dificilmente a mulher engana o marido às 6 da manhã. O homem só deve inquietar-se quando sua mulher começa ir à missa das três da tarde.
 

09.

Enquanto outros despertam amor à primeira vista com a própria cara, eu tenho que ter três horas para falar até a mulher esquecer a minha cara.

10.

Quando fiz quinze anos, ganhei um relógio de pulso e cinco mil réis. Olhei os ponteiros, vi que era hora de fazer uma besteira e entrei no botequim.

11.

Menino só fica sabendo que é feio, no colégio, quando o padre escolhe os que vão ajudar à missa, os que vão sair de anjo, na procissão, e os que vão constituir a diretoria do Grêmio Mariano. Eu soube que não era bonito, em 1928, no Colégio Marista de Recife. Nunca fui escolhido.

12.

Só creio em dois estados de lucidez: o dos bêbados e o dos poetas.

13.

O homem mau ri errado.

14.

Desconfiai dos feitos que são repetidamente comemorados com jantares e missas de ação de graças.

15.

A preguiça se parece muito com a humildade.

16.

Os bens chegarão ao acaso. O acaso é a verdadeira hora certa. A mulher virá para o amor. A poesia explicará o mistério. A música me desvendará durante algum tempo. Tudo que houver de ser legitimamente meu virá entre as horas que perco, enquanto durmo.

17.

O pior encontro casual da noite ainda é o do homem autobiográfico. Chega, senta e começa a crônica de si mesmo.

18.
Não se pode ainda estimar a extensão do mal que causou à sociedade carioca a edição brasileira de "Le Petit Prince". Faz dez anos, ou mais, pode-se dizer, como se diz após as tragédias, que é impossível fazer-se uma avaliação dos males provocados.

19.
Os homens tristes, geralmente, fazem graça.

20.

Ninguém me ama, ninguém me quer. Ninguém me chama de Baudelaire.

21.

Não há nada de maior mau-gosto que o flagrante de adultério. Imagine a situação de um casal, em trajes menores, diante de um marido ultrajado, um policial, um escrivão e três testemunhas. Não! Os maridos, quando passados para trás ou para frente (há maridos que depois de enganados melhoram de vida), devem tomar outras providências. Além disso, é preciso que se respeite o adultério. É pecado, é ilegal, é tudo o que se queira, mas existe desde os começos da humanidade. Marido enganado, quando já sabe que foi enganado, deve ficar quietinho, tocar a vida para frente, largar (se puder) a mulher) e não fazer o São Tomé, que sempre se deu mal na base do "ver para crer".

22

Cada pessoa devia fazer o seu dinheiro. Quem tivesse mais jeito para desenho, levaria vantagem. Nada mais justo. Poderia fazer uma nota de cinco mil cruzeiros, muito parecida com as que estão circulando por aí, valendo tanto quanto. Que tempo gastaria eu para desenhar uma nota de cinco mil cruzeiros? Caprichando, umas nove ou dez horas. Então, após trabalhar nove ou dez horas, qualquer homem tem direito a cinco mil cruzeiros. Em meu caso, não me conteria e acabaria desenhando Vinicius de Moraes no lugar de Tiradentes. Seria preso, como falsificador.

23.

Lá vai a mulher, levando o bêbado para casa. Uma mulher pequena e um bêbado grande. Ele não quer ir. Pára, agarra-se ao poste. Vem um guarda e o bêbado o insulta. O guarda segura o bêbado pelas abas do paletó. A mulher pede que não faça nada, porque aquele é um bêbado muito bom. O guarda atende. Vai-se embora. A mulher toma a mão do bêbado e começa a puxá-lo. O bêbado diz o nome de outra mulher e olha demoradamente o mar, como se a procurasse. Mas, a luz nova da manhã queima e fecha os seus olhos. Ele diz que vai buscá-la e começa a tirar os sapatos para entrar de mar adentro. Passa um automóvel, de onde outro bêbado lhe grita um palavrão. A mulher toma-lhe a mão, outra vez, e consegue que caminhem uns quatro ou cinco passos. Passa um rapaz forte, de calção. O bêbado o insulta. O rapaz morde-se na boca, fecha a mão e os seus olhos faíscam. A mulher pede-lhe que se abrande, repetindo que aquele é um bêbado muito bom. O rapaz atende e vai-se embora. O bêbado se encosta ao muro de uma casa e repete o nome, que dissera minutos antes. Um nome muito bonito, de uma dona que, pelo olhar triste do bêbado, deve estar longe. Passam duas mocinhas de colégio e riem do bêbado. A mulher odeia as duas, que não sabem sentir nem perdoar o bêbado. Vem um capitão e o bêbado insulta o Exército. Antes que o capitão dissesse alguma coisa, a muher lhe suplicou que não fizesse nada e fosse embora para o quartel. O capitão atendeu, mas, antes murmurou uma palavra de ódio, com os lábios semicerrados. O bêbado sorri e cobre o rosto com as mãos. A mulher o abraça, num carinho, e beija-lhe o peito. Vem uma velhinha e pergunta alguma coisa. A mulher lhe explica que aquele bêbado ela encontrou num bar, mas é um homem muito bom, diferente dos outros, e ela vai levando para sua casa, onde lhe pedirá que fique, para sempre. O bêbado sorri e diz, com orgulho, o nome da outra mulher. Saem andando... (Rio, 22.09.1959)

24.

A gente conhece quando é Deus que manda as coisas e quando é o diabo. Tinham bebido e, quando se deram conta, iam de automóvel, estrada afora, sem saber para onde. Deram num bar, de mesas e cadeiras cedidas por uma cervejaria. O mar era perto e cheirava a sargaços. Mas, o mar não tinha nenhuma importância. Veio um garçom sem paletó. Pediram-lhe uísque, gelo e que os deixasse o mais em paz possível. Na vitrola de fichas só havia tangos argentinos. Mandaram que tocassem todos, a partir do "El Dia En Que Me Quieras". Cada um ofereceu a sua mão direita e as duas se pegaram. Ficaram bebendo de esquerda. E começaram a se olhar, com toda a significação que os olhos humanos contêm. Um minuto depois, cada um sentiu seu primeiro ciúme, desejou que o outro morresse e, no minuto seguinte, quando fizeram as pazes, bateram os copos e continuaram bebendo, de esquerda. Uma bebida ruim que estava sendo ingerida sem o menor constrangimento, porque, quando perguntaram ao garçom se era legítima, este respondeu, sinceramente "Não Senhor". Veio um cachorro gordo, com os olhos ainda grudados do sono que dormira. Olhou, não viu futuro, foi-se embora. Veio um gato empoeirado, pulou na mesa, pisou em cima das batatas, roçou a cauda, tanto no rosto de um como no rosto de outro e, por não haver peixe, nem lhe fazerem carinho, foi-se embora. Veio um bêbado e disse um palavrão. Como ninguém protestou, convidou para brigar. Como ninguém aceitou, foi-se embora. Veio um polícia e pediu os documentos. Mas, era tão compreensivo que, ao ver as quatro mãos, de fato, ocupadas, foi-se embora. Nessa altura, a vitrola já ia no "Mano a Mano" e, cada um, sentindo o seu 25° ciúme da série retrospectiva, desejava que o outro morresse. Não se esbofeteavam, porque, de fato, as quatro mãos estavam ocupadas. E ficaram assim um ano e tanto. Um no outro, cada um mais longe de sua humanidade. Ambos sem a menor noção da dor comum. Até que uma quantidade imensa de cansaço os separou para sempre. Foi ótimo. (Rio, 16.07.1957)

25.

Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins — isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci — raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e "Navio Negreiro", de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho — de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: "oh!"..."comment allez vous"? De um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja.

26.

Não se pode fazer idéia do que era o povo do Recife solto nas ruas do Recife, após a declaração irreversível do carnaval. Faziam parte da corte imperial mulheres morenas, que suavam, em bolinhas, na boca e no nariz. Mulheres de olhos ansiosos, presas de todos os atavismos de religião e de dor, a dançar a mais verdadeira de todas as danças — o frevo. Ah, de nada serviam suas heranças de submissão, porque o despontar do carnaval era um grito de alforria. E seus corpos, seus braços, seus pés, teriam sido repentinamente descobertos, assim que os clarins do “Batutas de São José” romperam o silêncio a que os humildes eram obrigados. Tão louca e tão bela aquela dança! Uma verdade maior que as verdades ditas ou escritas, saía dos seus quadris, até então bem comportados. Eu era mais que um guerreiro. Era o vento. Cada homem e cada mulher eram uma parte daquele furacão libertário. Todos se emancipavam (eu digo por mim) e se tornavam magnificamente dissolutos... porque o clarim estava tocando, porque os estandartes se equilibravam no espaço, porque o mundo, naquele exato e breve momento era, afinal, de todos.

27.

Tudo deve ter mudado. O carnaval do Recife, talvez, não seja hoje um desabafo. Talvez, não contenha aquele desafio de homens e mulheres, livres de todas as sujeições e esquecidos de Deus. É possível que se tenha transformado numa festa, simplesmente. Talvez seja alegre e isto é sadio. Mas os meus carnavais eram revoltados. Não tenho a menor dúvida de que aquilo que fazia a beleza do carnaval pernambucano era a revolta — revolta e amor — porque só de amor, por amor, se cometem os gestos de rebeldia. Muitas vezes, de madrugada, o menino acordava com o clarim e as vozes de um bloco. Eles estavam voltando. O canto que eles entoavam se chamava "de regresso". Não sei de lembrança que me comova tão profundamente. Não sei de vontade igual a esta, que estou sentindo, de ser o menino, que acordava de madrugada, com as vozes dos metais e as vozes humanas daquele carnaval liricamente subversivo. Meu quarto era de telha vã. Minhas calças, brancas. Meus sapatos, de tênis. Meu coração, inquieto. E nada tinha sido ainda explicado. (07.02.1964)

28.

Tenho o dormir muito tranqüilo, fruto da serenidade interior. Se você me encontrar dormindo, deixe. Morto, acorde-me

29. 

A pessoa que dorme está inteiramente só. Quando o homem dorme, o seu rosto se desmarca de todas as tramas e de todos os desgostos. Nada enternece mais a mulher que o rosto do amante, dormindo. Ela se debruça sobre a face do amado e descobre que eram simples palavras todas as valentias que ele lhe vinha dizendo ou dando a entender. É quando a gente se parece menos com os mortos... é quando se está dormindo. Quanto mais pobre, mais comovente o ser humano que dorme.

30.

Nenhuma emoção é‚ mais forte que a de entrar no quarto da mulher que dorme. Sentir-lhe o cheiro e o calor, no ar do quarto. Tocar-lhe a pele poderosa. Só se ama uma mulher, quando lhe tememos a pele e o cheiro. Quando a idéia de sabê-la em outro amor nos torna capazes de matá-la ou perdoá-la. Ama-se, angustiadamente, o vestido pendurado da amante ausente. Ah, que intensos ciúmes, no passado e no futuro, sobre a nudez da amada que dorme! Só você a viu, só você a verá, assim tão bela. Um homem e uma mulher jamais deveriam dormir ao mesmo tempo, embora invariavelmente juntos, para que não perdessem, um no outro, o primeiro carinho de que desperta. Mas, já que isso é impossível, que ao menos chova, a noite inteira, sobre os telhados dos amantes.

31.

Na usina havia um lugar mal assombrado: “A Volta da Jaqueira”. Quem passasse por ali, de noite, veria sempre uma alma penada. Uma noite, eu e Tião resolvemos fazer um susto aos outros primos, que tinham saído a cavalo. Tião embrulhou-se num lençol, e, quando os cavalos vinham chegando, atravessou-se na estrada. Ninguém teve medo. Ao contrário, cada um, com o seu chicote, bateu na alma, até não poder. O coitado do Tião gritava, mas, ninguém lhe ouvia os gritos. Saiu com o corpo todo lanhado.

32. 

Logo que cheguei, fui morar em Copacabana, no Edifício Orânia. Onde morava César Ladeira. Não tinha relógio. Sabia das horas pela vizinha. Às sete e meia, em ponto, entrava um senhor. Eu ouvia a campainha. Às dez, ele se ia e minha vizinha o despedia no elevador, quase aos gritos: — Vê lá! Vê lá se vai me trair! Às onze em ponto, chegava o outro e eu ouvia a campainha. Às vezes, às duas da manhã, o primeiro resolvia voltar e saía uma briga... No Orânia, se eu comprasse um relógio, era porque queria mesmo gastar.

33.

Não há vida que me faça mais inveja que a de César Ladeira. Tem automóvel, toma banho de mar e só almoça às quatro da tarde, no Ponto Elegante. Sentei-me com ele, algumas vezes. Come, apenas, ovos mexidos, para não engordar. Tem sempre uma mulher, no apartamento, cada noite uma diferente. Um dia, batia à porta, ele veio atender, desgrenhado e explicou, fingindo que estava muito sem jeito: — Você desculpe, mas tem uma cliente que veio para a aula de ginástica. Devia ser uma artista. E da Urca. Desci o elevador, encantado.

34.

Abelardo Barbosa nos emprestou o rádio. Prometi-lhe um lugar na Tupi, se ele me arranjasse um rádio. O diabo é que tenho que pedir a Teófilo, quando voltar do norte. Teófilo não vai querer Abelardo, com aquele sotaque da Paraíba. Mas o rádio está aqui e tenho nove estações para ouvir. É só mudar de uma para outra. Agora, por exemplo, na Rádio Clube Brasil, estão passando o último disco de Orlando Silva: “Súplica”. É uma valsa linda. Fala nas súplicas de um amante abandonado, batendo nas paredes frias de um apartamento.

35.

Começo a pensar em como seria o apartamento. Se seria parecido com este 1005. Se tem a vista para a Guanabara. E a mulher? Na certa, uma argentina, metida a coisa, que chamava o homem de mi vida. Deve ser horrível ter-se uma mulher argentina! Não é por nada, mas já que vai falar espanhol que seja espanhola de uma vez. No Assírio, por exemplo, quase todas as mulheres são argentinas. Mesmo que eu tivesse dinheiro não sairia com elas. E é preciso ter dinheiro para sair com uma argentina. Muito. Come no Assírio, depois na Taberna da Glória e, de madrugada, no Soares. Só gente de Copacabana aguenta com elas. Comem três vezes por noite. Falar nisso, não sei se agüento até o anoitecer. Que fome, meu Deus! Mas, o jeito é aguentar com ela até de noite, quando poderei comer no Palácio, bife à milanesa, do tamanho de um lenço. Sai por uns três mil reais, mas, o que é que eu vou fazer? Meu amigo está em casa da noiva, na Tijuca, comendo galinha cozida. Ele sabe que eu só tenho sete mil réis para aguentar até sexta-feira. Custava me levar?

36.

Após 24 horas de viagem, uma parada e 4 doses de scoth chegávamos àquele cabaré de Saint Pauli. Uma mulher viera sentar-se ao meu lado ou, talvez, eu é que tenha ido sentar-me ao seu. Apurar de quem partira a iniciativa não era bem a preocupação. As pálpebras pesavam-me arrobas. Vestia uma calça azul de brim ordinário, uma camisa qualquer e um paletó de lã muito mais curto nas costas que na frente. Estava barbado e sujo. A mulher tomou-me uma das mãos, olhou-a e passou a uma amiga. A amiga olhou com desinteresse e devolveu. A que recebera de volta tornou a olhar e, depois de tomar-me a bênção, restituiu-me, enfim, a mão direita. Antes de guardá-la em um dos bolsos, contei os dedos. Estavam certos. Cinco. Aí, a cabeça caiu sobre os braços. Ouvia cada vez mais longe o pistom da orquestra solando o "Arrivederci Roma". Cada vez mais longe. Cada vez mais longe — quem sabe? — na própria Roma. Meus cabelos foram acariciados fraternalmente e não sei de mais nada. Acordei de tarde, sem saber onde estava e mais ou menos inseguro de quem era. Reconheci-me, a seguir, pelo relógio e pelas abotoaduras. Desgostei-me de estar sozinho e teria pedido àgua ou café, se um dos meus filhos viesse com a bandeja. Olhei o cinzeiro, onde estava escrito: "Vier Jahreszeiten — Hamburo" — Era demais. (02.08.1958)

37.

Queria muito ser poeta e sou speaker esportivo. Speaker esportivo com sotaque e até o dia em que Erik Cerqueira sarar dos pulmões. Minha situação é difícil. Tenho que pedir a Deus que ele fique bom, mesmo sabendo que vou ficar sem emprego. (Rio, Edifício Souza, 1940)

38.

Minha cama é diferente das outras. Só tem dois pés — os da cabeceira. Os outros dois, eu os fiz com revistas velhas, pilhas de “O Cruzeiro”. Foi assim: Teófilo de Barros Filho embarcou para o norte e levou os pés da cama, para que ninguém usasse sua cama. Habituei-me tanto a esta caminha que, quando a sinto fora do nível, já sei: Fernando Lobo tirou uma revista, para ler no banheiro. Depois, ele bota no lugar. Às vezes, perco o sono e preciso ler. Deito-me no chão e leio os pés da minha cama. Eu te amo, caminha. Com um amor tocado de adultério, porque não és minha, e sim, de Teófilo. Quando ele vier, se não te quiser mais, monto casa para você, fico com você e tudo.

39.

Augusto Rodrigues recebeu umas moças em sua cassa. Uma delas, distraída, levou-lhe o relógio. Uma semana depois, voltaram e Augusto não tirava os olhos delas. Iriam levar o que? Nisso uma perguntou as horas e Augusto não aguentou: — Olha aqui, agora, eu só tenho um relógio, que é aquele, da Standard. Veja as horas, mas, deixe ele onde está. A moça baixou os olhos e começou a chorar. Augusto ficou com pena e telefonou para o Mestre Valentim, pedindo laranjadas, sanduíches, doces. As moças comeram, com alegria, mesmo a que estivera chorando. Depois que saíram, que é da caneta de Augusto?

40.

Hoje, esta véspera de São João me encontra na distância em que voluntariamente me coloquei, lamentando, em silêncio, a morte da minha capacidade de deslumbramento. Aconteça o que acontecer, não sairei desta máquina (que há muito deixou de ser prazer para ser tarefa). Ah, eu gostaria tanto que os meus olhos ainda se encantassem, acompanhando o vôo dos balões ate à altura em que eles se transformam em estrelas! Mas, a fadiga acabou com as reservas de meninice que a gente deve manter pela vida a fora. Os fogos me intranquilizam. Os balões que se danem! Sou a favor daquele cartaz que recomenda não soltar balões para evitar incêndios dos pomares e das florestas. Gostaria de ainda acreditar nas adivinhações do copo, do prato fundo, da faca na bananeira... mas, tudo o que esses bruxedos podiam prometer eu já fiz, por tudo eu já passei, só falta morrer. Esta noite me encontro sem ternura nova, sem um novo motivo, heroísmo. Dela eu queria somente a brisa fresca e silenciosa, sem as vozes dos bêbedos, sem os estouros das bombas cabeça-de-negro. Dela, eu tiraria a paz filtrada de todas as dores ocasionais e, nela armaria uma rede cearense, para dormir, esquecido de mim mesmo. Mas, nem isso é mais possível. Todas as horas já foram prometidas aos outros. Tenho que escrever, tenho que falar, tenho que pedir, tenho que contar uma história engraçada, tenho que mentir... e tudo isto sem enlevo, na grande maioria das vezes, pelos que de mim exigem esta inglória maratona. Perdoai, senhores, tantas lamúrias. Mas, cada um dá o que tem. (Rio, 11.07.1953)

41.

Dezembro é o mês de uma infinidade de frases, que se repetem em todos os anos, sempre as mesmas. Vamos lembrar algumas, que estão sendo ditas, desde o dia 1°. — “O ano passou num abrir e fechar de olhos” — “Você reparou quanta gente conhecida morreu este ano?” — “E todas quando a gente menos esperava” — “Eu espero que o ano que vem seja um pouquinho melhor” — “Pois eu, minha filha, não tenho do que me queixar, Luís Mário passou de ano” — “Nunca houve um ano tão ruim para negócios” — “Vocês já viram quanto está custando um quilo de castanhas?” — “Minha filha, com a vida pelo preço que está, nós não vamos fazer nada. Mas se você quiser aparecer lá em casa, com as crianças, só nos dará prazer” — “Eu tenho horror a datas... se não fossem as crianças...” — “Natal de pobre é no dia 26” — “Se Dagoberto não estivesse tão atropelado, eu ia pedir para ir, com as crianças, passar o Natal nos Estados Unidos” — “Olhe, Daniel, como eu sei que os seus negócios não vão bem, vou deixar os brincos de esmeralda para o ano que vem” — “Mamãe, o Luís Otávio falou que Papai Noel é o pai da gente” — “Olha, se você não comer o ovinho todo, Papai Noel vai ficar tão triste que é capaz de não vir” — “Deixa passar esse negócio de Natal e Ano Novo que eu vou estudar uma maneira de ir pagando devagarinho” — “Bom, o regime eu só vou começar depois do ano” — “Você não vai encontrar banco nenhum que desconte este título, a não ser depois do dia 1º” — “Eu quero ver se, de janeiro em diante, paro de fumar e de beber” — “Este ano, só quem mandou presente foi o armazém, e assim mesmo, uma garrafinha de vinho do Porto” — “Eu já avisei a todo mundo que não quero nada, porque não tenho para dar a ninguém” — “Logo que as crianças terminarem os exames, eu boto tudo num automóvel e levo para um sitiozinho que eu tenho em Thiago de Melo” — “Vocês sabiam que no Norte, eles chamam rabanadas de fatias paridas?” — “O que você mais desejaria que o Ano Novo lhe trouxesse?” — “Minha filha, eu e as crianças estando com saúde, não preciso de mais nada!” — “Minha mulher é uma santa. ela falou que tudo o que eu tivesse de lhe dar de Natal, desse às crianças” — “Falaram tanto dessas cestas! Você viu o que veio dentro?”— “Pois olhe, lá em Portugal, um quilo de castanhas custa três escudos” — “Mas, hoje em dia, qual é a diferença que existe entre o champagne nacional e o francês”?” — “Com este, faz não sei quantos natais que eu não como uma fatia de peru” — “Você acha que, com as coisas como estão, este Governo aguenta até o fim do ano?” (Rio, 14.12.59)  

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